Você já ouviu falar na Beatrice Warde? Se você for fã de tipografia como eu, a resposta deve ser sim. Porém, se você for um mero mortal, a resposta deve ser não.

A Beatrice Warde, essa moça aí da foto de baixo, é conhecida como “A primeira dama da tipografia”. Ela era tipógrafa, pesquisadora e escritora. Passou grande parte da vida fazendo pesquisas sobre tipografia e escrevendo muitos artigos, e lá pro final da vida deu também várias palestras sobre o assunto.

Beatrice Warde

A Beatrice era muito inteligente, até pulou dois anos na escola, e foi lá que ela começou a escrever e a se interessar por poesias e peças teatrais. Então, aos 13 anos, ela começou a ter aulas de caligrafia e se interessou muito pela área da tipografia e das impressões, mas não chegou a trabalhar com nada relacionado à área, porque na época as mulheres eram barradas do aprendizado desse tipo de trabalho.

American Type Founders

Depois de se formar a faculdade, Beatrice conheceu o Bruce Rogers, um tipógrafo. Ele indicou ela para trabalhar na American Type Founders (ATF), que na época dominava 85% do mercado norte-americano de tipografia. Ela começou a trabalhar como bibliotecária assistente, e aproveitava para ler e estudar ao mesmo tempo. Nessa época ela também conheceu outros famosos tipógrafos, como o Daniel Berkeley Updike e o Stanley Morison (o criador da Times New Roman – essa fonte até sua avó deve saber qual é!), que iriam ser grandes influentes de seu trabalho mais para frente.

Na época em que ela trabalhava na ATF, Henry Lewis Bullen fez um comentário que a deixou intrigada. Ele disse que acreditava que a Garamond, fonte que a ATF estava revivendo, com origem atribuída ao Claude Garamond (outro tipógrafo famoso) deveria ter sido criada por outra pessoa, já que ele não estava encontrando registros dela no mesmo período que o Garamond havia vivido. 🤔

Garamond

Europa

Em 1922 Beatrice se casa com Frederic Warde, gráfico e tipógrafo. Esse casal tinha tudo para dar certo e os dois estavam praticamente já colocando a coroa de rei e rainha da tipografia, porém, em 1925, os dois se mudam para Londres, onde acreditavam estar o futuro da tipografia (a reprodução manual estava acabando, e as máquinas se propagavam), e um ano depois se divorciam, acabando com esse ship que você estava pronto para shippar.

Lembra daquele comentário que o Bullen fez sobre a Garamond? encucada com esse comentário, Beatrice passou a investigar as origens da Garamond, e descobriu que na verdade, a Garamond de Garamond não tinha nada, porque tinha sido criada por Jean Jannon 90 anos após a data estimada anteriormente.

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The Fleuron

Beatrice publicou a pesquisa (com ajuda do Morison, que se você já esqueceu, é aquele cara que fez a Times) no periódico tipográfico “The Fleuron”. Utilizou o pseudônimo “Paul Beaujon”, porque sabia que se usasse seu nome real, teria menos respeito e credibilidade por ser mulher (muito esperta, ela).

Escolheu o nome “Paul Beaujon” por soar francês, o que dava um ar de ~mistério~, e confundia os leitores que não entendiam como é que um homem francês sabia citar Lewis Caroll.

Por causa desse artigo, Beatrice (ainda como Paul) foi convidada a escrever para “The Monotype Recorder” em 1927, convite que ela aceitou de bom grado. Beatrice continuou escrevendo para o Recorder e, em 1929, foi promovida a diretora de marketing, cargo que ocupou até a sua aposentadoria em 1960.

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This is a printing office

No novo cargo, Beatrice estava encarregada de criar campanhas de marketing para os produtos da Monotype (empresa lendária que ainda existe e recentemente adquiriu a Fontsmith, outra type foundry gigante), e trabalhava com seu velho amigo, Stanley Morison (agora você lembra quem ele é, né?).

Enquanto trabalhava com Eric Gill, ela ajudou a lançar e promover a famosa Gill Sans, e criou o conhecido manifesto “This is a Printing Office”, utilizando a Perpetua, de autoria de Eric Gill. Este manifesto tem sido usado por vários departamentos de impressão, inclusive um que está na entrada do Departamento de Impressão do Governo dos Estados Unidos.

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A taça de cristal

Outra coisa legal que a Beatrice criou foi um texto chamado “A taça de cristal”, que se você for designer, certamente já deve ter lido, ou sozinho ou no livro “Textos clássicos do design gráfico”, que aliás é um livro ótimo que todo designer deveria pelo menos dar uma folheadinha.

“A taça de cristal”, também conhecido como “Por que a tipografia deve ser invisível” é muito importante para o design gráfico. Resumindo, neste texto ela defende a ideia de que a tipografia deve ser clara e concisa, para que o leitor não se distraia.

Em conclusão, isso não só se aplica à tipografia, mas no design, concluindo que o design é uma ferramenta, não o produto final.

O legado da primeira-dama da tipografia

Infelizmente, após a morte de seu amigo Morison em 1967, a saude de Beatrice começou a decair, e a depressão a abalou muito. Em 1969, Beatrice faleceu em sua casa no sul de Londres.

Para honrá-la, a Type Directors Club (TDC), instituição da qual Beatrice foi o primeiro membro mulher, entrega, anualmente, uma bolsa de estudos dedicada ao ensino da tipografia para mulheres. É entregue para alunas excepcionais que tenham demonstrado maestria no uso da tipografia em diversos tipos de mídia. Tem interesse na bolsa? Você pode fazer sua inscrição aqui 

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